Dias Tempranos

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Janeiro de 1987, Cierra Vermelha

Eram nove horas e quinze minutos a última vez que olhei atentamente para o relógio daquela pequena sala de estar da pousada onde havíamos marcado. Nós dois sabíamos que o tempo não era o culpado, mas sim a desculpa do medo que habitava dentro de você. Eu sempre fui uma mulher decidida, pronta para o que viesse ao meu encontro. Nunca neguei que amava você, dentro ou fora das nossas incontáveis quatro paredes. Você nunca disse que eu era sua, e muito menos que seria forte o suficiente para apostar em nós dois. Você me amava, mas de uma outra maneira. Eu sabia que cada segundo que se passava era mais uma resposta de que você não viria, mas mesmo assim, eu queria acreditar que isso tudo era mentira e que você estaria logo ao meu lado.
Você não veio. De frente para a janela daquela pequena sala de estar onde eu estava, o céu parecia irradiar felicidade, o sol emanava vida e tudo ao redor parecia estar completo. Mas eu não me sentia assim. Eram quase duas da tarde e você não tinha chego, você nem se quer me ligou. Talvez por ansiar viver uma história nossa, eu apostei em você. Em criei um nós. Você me dizia coisas lindas, mas porque eu queria ouvi-las. Você se rendia a mim, porque queria experimentar o risco na sua vida. Nunca neguei que eu o havia escolhido, e que esperava um futuro entre nós. Parada no meio daquela sala, o calor parecia aumentar. Não era o sangue subindo na minha cabeça, porque raiva eu não me permitia sentir. Não de você. Eu estava cansada de criar momentos e não histórias reais. De algum modo eu não estava magoada com você, eu estava era surpresa, mas por você não ter conseguido continuar na minha ilusão. Eu estava com pena de mim.
Longe de casa, longe de você, eu estava numa cidadezinha esperando algo que eu mesma sabia que não existira. Me lembro que com o passar daqueles longos dias, de estômago vazio, eu só conseguia crer que de uma vez por todas você não era a pessoa certa, e muito menos o ideal de homem que eu idealizei. Eu merecia mais, e com isso a pena que eu senti, se foi. Decidi que era hora de voltar, sem você mas com a dignidade que me restara. Parti na manhã seguinte.

Diário da Eva, por Eva Strass

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