Adiante era o Caminho

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“Eu acabara de ter chego no pior lugar que alguém um dia já pode estar. Eu acabara de chegar no final do fundo do posso, daqueles que por mais que você grite, por mais que você implore, por mais que você queira morrer, nada nem ninguém parece querer lhe ajudar. Eu acabara de descobrir o quanto eu valia a você, e a resposta era clara: você não me amava. Não como eu amei você. Não do jeito que eu esperei por você. Chorando todas as noites em que não estávamos mais juntos, morrendo por dentro e pensando nas milhares de besteiras que você poderia estar fazendo, você não foi justo comigo. Eu sabia que estava sendo ridícula e imatura ainda amando você, mas quando você abre o seu coração e se permite apaixonar-se, não há uma maneira certa de se lidar com as emoções.
Passaram-se uns dias. Nada parecia ter mudado. Eu continuava a mesma, sem respostas, com tantos questionamentos que cheguei ao ponto de não atender mais o telefone, com medo de ser você e não saber ao certo que reação eu deveria ter. Eu estava sendo claramente burra, porque não era eu que deveria estar com medo de você, mas sim o contrário. Quando você está apaixonada, burramente você se torna cega.
No meio da bagunça em que a minha mente se encontrava, num ato impensado de desespero, toquei no chão algumas cartas que você havia escrito. Aquilo foi um ato plenamente humano de esvair a minha raiva. Só que para a minha surpresa, ao caírem no chão, eu avistara algo entre as cartas. Não era você, não era o nosso falso amor, não era nada de que eu tivesse ciência de existir. Era uma espécie de carta, mas não uma carta escrita para mim. Era uma carta sua, escrita para você. Maldita letra, maldita lembrança dos seus detalhes, eu sabia e lembrava perfeitamente de tudo que compunha você. Do seu cheiro, do seu péssimo gosto por rock, das benditas calças e inclusive de cada detalhe do seu rosto. Eu sabia tudo o que você era, e isso sinceramente, me matava sempre que eu me lembrava em você.
Alguma coisa havia naquela carta, e não era algo esperançoso para alguém que por muito tempo se sentiu traída. Naquele pedaço de papel dizia que os anjos cantavam a noite para você, enquanto a sua dor adormecia dentro do seu peito, porque em frangalhos de esperança, nada mais fazia sentido. Nada mais havia dentro daquilo que um dia vocês chamaram de amor. “- Ah faça-me o favor!” eu me lembro de ter dito bem alto. Isso não era uma espécie de carta, isso era um relato de dor. Dor essa que ele um dia sentiu, quando aquela pessoa que estava junto dele por algum motivo não o soube reconhecer, e prefiriu então o deixar para seguir a sua vida adiante.
Que surpresa estranha, por que foi exatamente assim que eu me sentira. O mais complicado de se descrever é que de alguma maneira absurda, ele retribuiu ao universo o mesmo modo de pensar que um dia alguém agiu com ele. Talvez ele não estivesse preparado para ficar com a pessoa certa, que obviamente não era eu. E obviamente não será tão fácil de ser encontrada, porque quando você tem algo e espera a perfeição, você pode sentar, deitar ou morrer em pé, porque ela não virá até você.
O final da carta apenas dizia: “Chorava calado, gritava à mim mesmo. Brigava comigo  e me segurava para não cometer nenhuma loucura, porque eu sabia que o dia de amanhã era outro, e torcia para ser melhor do que o de hoje”. Foi justamente assim que eu me mantive viva, porque era nítido que você não era o cara ideal, e nós não éramos o casal certo. Pelo menos não hoje, e acho que nem um dia iremos ser.
Organizei cada bagunça que eu havia feito, e me levantei. Abri a porta de casa e saí para encontrar a vida. Estava cansada de viver enclausurada por alguém que já havia seguido o seu caminho adiante.”

Eva Strass, 19 de dezembro de 1988

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