Resgatada pelo Universo

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“Dizem que cada manhã fria de inverno é como se acordássemos de um passado já visto antes. Me lembro de todos os dias em que eu não conseguia uma única vez não me lembrar de você, que eu não pensasse em nós dois.
Às vezes seguir em frente é como abdicar de tudo aquilo que você constrói e ainda assim, sente medo em abandonar o que ficou.

Era uma noite fria, e eu estava esperando você. Me lembro de estar numa rua gelada, num bairro úmido, pronta para te abraçar e irmos para sua casa.
Quando você apareceu meu coração disparou.
Eu pensei que havíamos nos resolvido, que havia voltado tudo a ser como eu um dia pensei que fosse. Mas eu estava enganada.
Ao encontrar o teu olhar, tudo o que senti desapareceu. Tuas palavras foram duras e sólidas como um tijolo é com uma parede.
Tu sufocastes o meu ar, sufocastes o meu horizonte e me fez ficar perdida dentro de mim mesma. Eu estava dilacerada, e você estava saindo mais uma vez da minha vida. 

Ele havia partido.
Ele havia levado mais uma vez o que restara do meu coração.
Eu sempre acreditei que traição fosse algo recuperável, que uma relação é feita de sentimentos e não de dores vindas do passado.
Eu o perdoei, eu quis recomeçar. E ele mais uma vez conseguiu me enganar.


Todas as vezes em que eu pensei ser a mulher da vida dele, o universo me fazia calar os meus pensamentos.
Em todas as tardes que eu caminhava sem rumo, o universo me contemplava com uma solução.
Todos os momentos em que eu cai, o universo foi a muleta que me ajudou a continuar caminhando.
Em todos os dias que cada sentimento era uma agulha no meu peito, o universo repetia em meu ouvido que a dor passaria e o amor sararia o que ficou.

Quando eu o enxerguei por entre as minhas lágrimas dando as costas para mim mais uma vez, eu sabia que você não havia a abandonado, e que me culpar era muito mais fácil de aceitar os teus próprios erros.
Você sempre gostou de bancar o valente, mas nunca deixou de ser o menino medroso da casa dos teus pais.
Você já não se respeitava mais, e não sabia lidar com o fato de que eu sabia disso.
A tua saída foi arranjar alguém como tu, e eu, definitivamente, não era a mulher que poderia estar ao teu lado.
Por te amar, eu deixei você seguir as tuas escolhas.
Eu não era o cósmos, não era o universo. Eu era a mulher que te amou, que amava toda uma história vivida. Eu era uma mulher culpada por erros que eu não havia cometido. Eu era insegura de mim mesma e incerta do que poderia vir a seguir. Eu era uma humana perdida no meio do caos que era o meu universo.

Saber que você não conseguia se perdoar era tão doloroso quanto entender porque você me usou.
Eu sabia também que a partir daquele momento eu não poderia fazer mais nada, porque tudo o que eu havia feito não era o suficiente para aceitar as marcas que mais uma vez ardiam dentro de mim.
A partir daquela noite, em prantos eu havia de algum modo voltado à mim mesma, e tentava de alguma maneira buscar forças para me reerguer, já que eu sabia que merecia mais, sabia que merecia ser amada por alguém que compreendia a importância de se respeitar os sentimentos do outro.
Eu precisava permitir que mesmo diante da dor, você partisse.
Sem muito entender, eu só conseguia perceber que o universo havia me resgatado, e havia me salvado de um mundo completamente diferente do meu.”

Julho de 1988, 

Eva Strass

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