Um reflexão sobre “O Que é o Jornalismo de Moda?”, por Jorge Wakabara

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Hoje encontrei um texto muito interessante sobre “O Que é Jornalismo de Moda?”. Será que consumimos a informação que realmente gostaríamos de consumir? Será que todo o universo da blogsfera realmente está atenta ao consumo? Ou está perdida dentro dele? Tudo isso é muito bem pontuado no texto.

Espero realmente que vocês possam refletir, e mais do que isso, que possam se identificar com as pontuações evidenciadas pelo Jorge.

Então Quem Vai Fazer o Novo Jornalismo de Moda?

A indústria da moda está em crise. A economia global está em crise. O jornalismo está em crise. O jornalismo de moda está em crise. Pra incrementar essa audiência, vamos falar do vestido da Nicole Kidman. Vamos falar onde comprar esse novo modelo de brinco esquisito que todo mundo está usando ou quer usar. Vamos falar desse desfile que colocou modelos de 50 kg na passarela com o cabelo verde, e ninguém conhece muito bem esse estilista por aqui mas a gente usa o cabelo verde como gancho pra chamada.

Quem sabe assim a tiragem não aumenta? Quem sabe assim a audiência não sobe? E amanhã a gente arruma outro acessório esquisito, pode ser aquele da novela. Pode ser outra atriz usando outro vestido – se bem que nem vi tanta diferença, até a cor do vestido é igual, e a cor do cabelo delas também, e a dos sapatos e da pele e das joias. Vamos falar do uso exagerado do Photoshop naquela campanha, que deixou a menina de 50 kg com aparência de quem tem 43 kg? Mas que imagem distorcida, que absurdo, ela já é magra, por que deixaram ela assim?

E depois de amanhã a gente pode garantir a audiência falando que a clog é a nova rasteira, que tangerina é o novo preto, que coroa de flor é a nova trança – se bem que eu, assim, pessoalmente, não trocaria minha rasteira e meu preto por nada, e acho que usar trança é meio patético, então imagina a coroa de flores.

Mas você ainda não tem a clog da Stella McCartney? Na C&A tem uma igual!

O consumismo desenfreado, resultado do american way of life, é exasperante e esgota os recursos do nosso planeta. O que o jornalismo de moda não percebeu, ou fingiu que não percebeu, ou se esforça pra não perceber, é que estimular o consumo não é cool. Quem é cool hoje consome menos. E é cool dizer que consome menos. Sabia?! Cool é saber gastar. Cool é ir num show de graça de uma cantora incrível numa praça linda. Cool é ir numa exposição gratuita que dá voltas no quarteirão e dizer “que maravilhoso toda essa gente interessada em ver essa exposição”. Cool é ter informações e saber debater com embasamento sobre o Marco Civil da Internet, sobre as manifestações de junho, sobre o programa Mais Médicos. E não é cool porque é modismo – é porque o negócio é sério e isso tudo mostra quem é você na sociedade, como você atua dentro dela.

(Enquanto isso, a chamada na banca é “Como amarrar o seu homem na cama com uma seleção incrível de lingeries de renda”, e sinceramente pra amarrar esse homem ele precisa ter tesão em você e não na lingerie. E talvez você não precise amarrar homem nenhum, que tal, já experimentou? Por que mesmo a gente parte do pressuposto que você precisa amarrar um homem?)

Quem vai fazer com que a mulher com mais de 68 kg seja uma garota da capa normalmente, e não vire notícia apenas pelo fato de ter mais que 68 kg? Quando é que modelo negro(a) vai ser comum e não cota? Quando é que não vai ser preciso de um Black Issue pelo simples fato que black is beautiful e todo mundo sempre chama os blacks pra posar e serem lindos? Quem vai dizer que é mais importante pro seu estilo ler um livro sobre a Coreia do Norte do que comprar o sapato da Prada?

A busca pela audiência com matérias de conteúdo apelativo (perceba que o conceito de apelativo aqui é bem abrangente) é um tiro no pé no jornalismo em geral, e na especificidade do jornalismo de moda também. Sou pessimista no sentido de não subestimar a capacidade do leitor de perceber, em algum momento, que aquilo tudo é uma grande pilha de estrume que não serve pra nada. Ou seja: na verdade estou sendo otimista perante a humanidade. Você assistiu “Bling Ring” e dormiu tranquilo, caro jornalista de moda?

Quem vai fazer o novo jornalismo de moda, que percebe e se arrepende de ter feito pactos com a indústria e sistemas, e esqueceu do mais importante? O leitor.

Ele, que talvez não queira ser consumidor, não tenha menos de 68 kg e ainda assim goste de moda. De que moda que ele gosta mesmo, que eu nem lembro mais? E quem vai escrever pra ele?

Jorge Wakabara

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