Rio de Janeiro

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Às vezes eu costumava acordar e abrir a janela do quarto. Sempre gostei de sentir o calor do sol pela manhã, ou a brisa do ar durante a noite. Eu me recordo de ter tido o hábito de me espreguiçar olhando para você, numa posição meio estratégica, de um jeito capaz de conduzir o meu olhar ao teu rosto. Tenho boas lembranças desse apartamento aqui no Rio de Janeiro. 

Nunca pensei, e nem nunca descobri como explicar, mas de alguma maneira eu sabia que não importava onde eu estivesse, ou onde você estivesse, nós dois nunca esqueceríamos um do outro. Sabe aquela metáfora das duas partes da laranja? Pois é, eu nunca pensei que ela fosse verdadeira, e nem passou pela minha cabeça pensar que você seria a minha metade. Mas havia algo em você que me trazia um frescor de fruta roubada, assim como aquelas que a gente roubava da casa do seu Juarez. Eram bons tempos aqueles.

Sabe Jorge, se fosse a uns três meses atrás eu poderia jurar que seria você quem iria embora. Só que as coisas tomaram outro rumo. Outro rumo não, outra direção. Você é prepotente demais, turrão ao ponto de ser orgulhoso. E é esse teu orgulho que me impede de ficar aqui.

Não tenho marcas visíveis no meu corpo, mas tenho cicatrizes lá dentro, onde poucos tem o conhecimento e o acesso que você teve. Também não quero me melindrar, porque não quero a sua pena. Quero que você fique com essa foto de quando éramos pequenos, esse cordão que você comprou daquele cara na Lagoa, lembra? E ah, quero que fique com esse postal também. Sei que foi você que me enviou, e pela lógica ele deveria ficar comigo. Mas eu não quero ter algo que me prenda a você. Foram bons tempos ao teu lado, não nego. Mas agora eu preciso ir. O meu táxi já deve estar lá em baixo, e você ainda ronca como se fosse um trator. Deve estar sonhando com alguma coisa.

Deixo por último um beijo na sua testa, com sentimentos meus, assim como os deixo nesta carta. Não tive coragem de enfrentar o teu olhar e muito menos a sua voz embriagada. Não sou tão forte como eu pensei que fosse. Eu não pude ficar, continuar ou insistir. Sei que você não me pediria também, não vai me ligar e nem mesmo me imploraria para eu ficar, sussurrando para eu voltar o mais rápido possível.

Te peço que tu te entregues ao mar, à vida, e aproveita essa cidade que tanto te acolheu e te fez sossegar.

Não me procura.
Também estou partindo do Rio.

Eva Strass
Abril de 1982

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