Domingos Melancólicos

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“Dizem que a chuva só chega ao chão quando é necessário lavar e levar consigo tudo aquilo que ainda não havia sido desvencilhado de nossas vidas.

Entre dois corpos existem dois corações. Ou pelo menos era assim que as coisas deveriam ser. Dois corações, dois amantes, duas almas presas em corpos cujo poder de afeto deveria ser colossal.

http://youtu.be/vRXNyXjgJmE

Acreditei num amor, numa aventura. Fugi do medo apostando no incerto. Fiquei curiosa para o novo e adentrei com todas as minhas forças o que ele significaria em minha vida. E de fato significou muito. O único erro, se é que existe apenas um, é que fui tola em não partir antes que você partisse o meu coração.

Eu sempre acreditei que um dia o mundo retribuiria tudo aquilo de bom que eu outrora havia feito. Talvez o universo pensasse como eu, ou talvez ele quisesse apenas se divertir às minhas custas.

O fato é que eu acreditei em palavras ditas ao vento, sem ao menos consultar a veracidade dos fatos. Eu acreditei num amor. Acreditei num elo de verdades escritas no céu por alguém que sabia mentir sem dó e piedade. Acreditei em alguém cuja fé não era algo capaz de mover montanhas, cujas costas nunca haviam sido apunhaladas ou os ouvidos haviam sido ingênuos por acreditar numa mente perigosa. Eu havia acreditado em você.

The Universe Dress
mixed media: micron pen, copic markers, and prisma markers. 

Santo Agostinho já dizia que nós só conheceremos a natureza dos anjos de modo perfeitamente claro, quando estivermos para sempre unidos a eles. E de alguma forma, eu corria contra mim mesma implorando para não ter sido ludibriada.

Lágrimas naquele instante de certezas brotavam sobre a minha pele pálida em mais uma tarde chuvosa daquele abril curto em tempo, mas longo em decepções. Eram tempos difícieis, tempos crueis, tempos perturbadores e aparentemente inacabáveis.

Quando alguém parte da sua vida, a sensação que se tem é de que parte do seu mundo deixa de viver com você. O mais esquisito dessa sensação é que justamente a dor e o valor que damos ao sentimento permanecem ali, doloridos e acanhados com a maldita nostalgia que por hora é exatamente arrebatadora com aquilo que restara de nós: migalhas.

Doía viva. Doía de pé. Doía deitada. Certamente iria doer se eu estivesse morta ou transmutada. E sim, o meu coração já havia sido machucado antes. A diferença é que dessa vez, o meu corpo inteiro havia sido atingido com as tuas ações, golpeando cada centímetro daquilo que me compunha, acertando cada parte do corpo que você um dia havia jurado amar.

Entre os regalos deixados por ti, eu sabia que Cataria não te merecia mais do que eu. A única diferença é que você era o único que ainda não sabia disso.

Com sonhos ou sem sonhos, com aparências ou não, a vida haveria de te reservar marés turbulentas e poços sem fim, para que de alguma forma o teu sofrimento perturbasse não somente a quem perturbou, mas fizesse você conhecer o muro de lamentações que eu um dia criei.

Sobre um olhar triste e manhoso, eu passava mais um domingo sentada no sofá que compramos juntos. Aquilo era realmente enlouquecedor. Tanto quanto deixar de te ter. Mas eu precisava da minha loucura para me reerguer. Precisava dos meus momentos de ódio, de angústia e também de vitimismo para mais a frente eu reunir forças e seguir.”

Eva Strass, Abril de 1978

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