PAPO IT com Jorge Furtado

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“Antes tarde do que nunca” diria minha amada avózinha, uma vez que o primeiro Papo It do ano está sendo lançado agora em março (não me matem!).

Bem, para tentar me redimir com vocês, trago como nosso convidado de hoje um cidadão incrível, um profissional genial e carregando em seu currículo 2 produções vencedoras de Emmys. Quem ainda não associou o nome ao trabalho, eu vos respondo: Jorge Furtado é o diretor da premiada série da Rede Globo, Doce de Mãe. Confira essa conversa que aconteceu na 1ª Conferência de Excelência & Inovação RBS TV e TVCOM lá na Laureate Ritter dos Reis, em Porto Alegre (minha faculdade).

Como foi organizar e montar um Doce de Mãe?

Doce de Mãe foi em primeira tarefa inventar a história, criar as histórias dos personagens; segunda tarefa convidar a Fernanda Montenegro e ela aceitar. A partir daí tudo se tornou muito simples, porque com ela capitaneando… primeiro que todo mundo aceita, qualquer pessoa que eu convido para participar, mesmo que seja para uma participação especial, se eu disser que é um programa com a Fernanda Montenegro todos querem. (risos) Então todos os atores que aceitaram, todos eles toparam por um conjunto todo. Para tu teres uma ideia da equipe, são oito atores, mas a equipe em si tem mais de cem pessoas, mais ou menos cento e dez pessoas produzindo, e isso tudo em quatro meses de filmagens aqui e no Rio, então foi uma tarefa enorme coordenada pela Nora Gourlart, que é a produtora da Casa de Cinema, juntando essa turma toda filmando pelo país a fora. Por isso, foram quatro meses muito divertidos gravando e também mais quatro meses montando.

Como é essa sensação de participar de projetos que já ganharam o Emmy?

Olha é muito bacana. Eu já tinha estado no Emmy outras três vezes, inclusive com Mulher Invisível que também ganhou o prêmio. Com um Doce de Mãe, nossa, o fato de a Fernanda ter ganhado o prêmio foi uma emoção enorme, porque é a primeira vez que uma atriz brasileira ganha o prêmio, e ela estava concorrendo com grandes atrizes de grandes produções do mundo inteiro… Então assim, poder ter feito esse trabalho e ter ganho esse prêmio com ela, nossa, é uma honra eterna para o meu currículo.

Eu queria que tu nos contasses como gaúcho, como que tu enxergas a TV e o Cinema daqui do Rio Grande do Sul?

Primeiro vamos falar da Televisão. A Televisão gaúcha tem bastante coisas ativas, por exemplo, existe um projeto da RBS que se chama Histórias Curtas. Esse projeto é uma coisa rara, é a única produção de dramaturgia local no Brasil. Não tem outra, e isso eu digo que não tem nem em São Paulo, em Minas… em lugar nenhum existe produção de dramaturgia local na TV. Então isso foi uma conquista que a qualidade da RBS fez abrindo esse espaço para a produção de dramaturgia aqui. Quanto ao cinema no Rio Grande do Sul, eu acho que a gente tem bons realizadores, eventualmente bons filmes, e acho que a gente tem que se desprender um pouco dessa ideia de cinema gaúcho. Porque eu nunca quis fazer cinema gaúcho. Eu sou gaúcho, moro aqui, sempre fiz cinema aqui, acho que os meus filmes são gaúchos, mas eu não penso se eu vou fazer um filme daqui. Quando eu vou fazer um filme, eu vou fazer um filme para o mundo inteiro. E acho que tem uma frase do Tchekow que diz “Canta a tua aldeia e cantarás ao mundo”. E é isso, entende? Tu tens que falar da tua aldeia, mas para o mundo.

Jorge, eu queria saber como que tu enxergas o Brasil como mercado, ele é um bom mercado?

É um ótimo mercado. Eu nem penso no Brasil como um mercado, eu penso no Brasil como uma pátria mesmo, porque é a minha língua. Eu sempre morei aqui, eu falo português, então eu quero falar sobre as coisas do Brasil. Acho que é um bom mercado sim.

E tu já tiveste a experiência de trabalhar lá fora?

Eu já tive produções. Filmar fora do Brasil eu já tive uma experiência pequena que foi uma produção que eu fiz para um curta na Argentina, filmando em Buenos Aires. Mas eu já tive convites para filmar lá fora, inclusive eu já produzi para a TV inglesa, para TV alemã, mas mais no Brasil. Por isso que eu digo que na verdade, o que me interessa mesmo é o mercado do mundo inteiro, não só do Brasil. Porém, morar e produzir eu gosto de fazer isso aqui, no Brasil.

Eu queria que tu nos desses uma dica para toda essa juventude que está começando agora a trabalhar com cinema e TV e também que está começando a estuda-lo, eu gostaria que tu nos contasses como tu enxergas as escolas de cinema e de comunicação em geral pelo país? E que dica tu daria em relação ao mercado?

As escolas eu acho que são um auxílio luxuoso, porque eu gostaria muito de ter estudado numa escola de cinema. Quando eu comecei não existia uma escola de cinema, hoje nós temos algumas e eu acho que essa chance de estudar cinema é muito bacana, porque a maioria dessas escolas possuem bons professores, tem dicas de bibliografia, tem uma galera que se junta em torno de um único assunto, e isso tudo é muito bom. Já a dica que eu posso dar, independente do curso, são duas: Leia muitos livros e principalmente, bons livros. Porque sinceramente, eu acho que nós só teremos bons cineastas se eles forem bons leitores. Ninguém sabe escrever se não ler. Por isso, parem de ver tantos filmes e vão ler bons livros. (risos) E a segunda dica é encontrar a sua turma. Sabe por quê? Porque cinema é uma arte coletiva, ao contrário da pintura, da música, entre outras tantas coisas que você pode fazer sozinho em casa… Mas uma coisa é certa, tu não pode fazer cinema sozinho, por isso é importante ter uma turma com interesses comuns e afinidades, mas também talentos diversificados, porque não adianta ter um monte de diretores, é preciso ter também fotógrafos, produtores de arte, figurinista… Tem que se ter uma equipe de vários interesses e que queiram fazer um bom filme juntos.

Como que tu enxergas essa geração de jovens no país, não só no cinema, mas em geral, eu gostaria que tu desse um recado para nós todos, seja sobre cidadania, agregando respeito, política e visão de mundo.    

Eu acho que essa geração nasceu na democracia, ela tem o compromisso que é manter essa democracia. Eu tenho 55 anos e passei metade da minha vida numa ditadura e a outra metade numa democracia, e eu posso garantir para todos vocês que são jovens que a democracia é muito melhor. Sabe Matheus, eu me lembro de ter ido a Buenos Aires de ônibus na minha juventude para assistir Laranja Mecânica, porque esse filme era proibido no Brasil. E não pense que eram só filmes, eram músicas, livros… Então a gente não podia ver coisas aqui no nosso país e tinha que ir para Argentina assistir. Por isso que eu digo que a ditadura é terrível, e uma geração anterior a de vocês jovens de hoje, conquistou essa democracia, portanto vocês tem a obrigação de manter essa democracia, de aperfeiçoa-la, porque ela tem muita coisa para melhorar ainda, mas mantê-la e valoriza-la, produzindo cultura e arte na democracia.

Nossa incrível essa tua colocação. Bom, e para finalizarmos, eu queria que tu falasses sobre a liberdade sexual que é usada em um Doce de Mãe, em especial o beijo gay dentro do contexto familiar, da aceitação da família com o homossexualismo.

É engraçado isso, porque eu brinco que o primeiro beijo gay foi na novela, mas o segundo, o terceiro, o quarto, quinto… Foi em Um Doce de Mãe. (mais risos) Olha, falando sobre a democracia, essa questão do beijo gay eu acho completamente ridículo. Porque gente, como é que alguém pode proibir o carinho, quer dizer, ninguém tem o direito de proibir o afeto. Isso para mim é uma coisa bizarra. Eu espero que isso já esteja superado.

Ele é ou não é um querido? Super amei ter tido essa conversa com um grande homem. Vida longa a Jorge Furtado e também a todos os seus projetos, em especial, a um Doce de Mãe! <3

O que vocês acharam?

4 Comentários

  1. O que eu achei Matheus Almeida? Eu achei o maximo!!! Parabens!Que bom pra tua carreira poder contar com a generosidade deste genial artista brasileiro, que conseguiu com talento e persistencia ultrapassar nossos pagos. Amei. BJS

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