Da relação de ter apenas 19 anos e já ter 19 anos

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Desde muito novo eu sempre apresentei características que me colocariam no caminho que venho trilhando profissionalmente. Sempre gostei de criar, de estar envolto de pessoas, de chamar atenção, de me vender a tudo e a todos. Lembro que uma vez uma tia avó veio visitar a casa de minha avó. Como éramos familiares ela gentilmente pediu um desenho, eu na hora disse que faria mas com a condição de que o venderia a ela. Ela topou e comprou a ideia. Naquele momento meus pais fizeram cara feia e disseram para eu não fazer mais aquilo. Por sorte, minha tia avó insistiu e o comprou. Esse exemplo mostra perfeitamente como eu desde muito novo, lá pelos 5, 6 anos de idade, já era uma criança com o olhar lá na frente, nunca prejudicando alguém ou desejando isto, mas almejando o meu sucesso.

Sem pretensionismo algum, sou um cara humilde, aceito os meus erros, procuro reaver toda e qualquer situação mal resolvida, busco não ficar atritado a ninguém e torço, sempre, pelo sucesso de quem me é próximo. Acontece que algo ultimamente tem me estressado para caramba. Tenho 19 anos, um turbilhão de compromissos impostos por mim desde os 14 para os 15 anos, estudo, pago as minhas contas, tenho uma vida comum da maioria dos jovens da classe média deste país. Agora o que mais me incomoda é o fato de que com 19 anos eu já vivi bastante coisa para quem só tem 19 anos. E isso é complexo demais.

Eu já vivi as inseguranças dos 17, já passei pelas ansiedades dos 18, enfrentei os 15 muitíssimo bem e agora, com 19 anos, tenho um prêmio ganho, fui indicado a mais um, sou autor do primeiro site de moda e comportamento masculino do Rio Grande do Sul e já fui matéria em 14 países no mundo. Talvez para quem tenho o triplo, ou até mesmo o dobro da minha idade, isso não seja nada. Ou talvez isso seja muito para justificar quem você é no hoje. Mas para mim, ter 19 anos já é tanto que eu só quero continuar crescendo. Porém, o mundo lá fora ainda enxerga o homem de 19 anos como um guri que tem apenas 19 anos. Isso não é questão de identidade ou uma questão de segurança minha, é uma questão de saber separar a cronologia da capacidade ofício-intelectual de cada um.

Uma vez fui a um show com uma amiga de 18 anos na época. Eu seria o repórter, ela a fotógrafa. Pela barba as vezes engano e aparento mais idade do que tenho, mas ela não teve essa sorte. Minha amiga foi tratada como uma incapaz por ter apenas 18 anos. Teve que comprovar todo o material, ser vista com olhos de quem vê uma criança, e foi até desacreditada pela produção do evento. Por felicidade, as fotos chegaram até os artistas daquela noite que só elogiaram o trabalho dela. Esse exemplo mostra o quanto eu sinto um desrespeito do mercado para comigo e com todos os outros jovens que também tem seus 18, 19 anos, e querem crescer muito, mas para isso, nós precisamos de um crédito que em muitos dos casos não existe, simplesmente por não termos a idade “adequada”.

Esse questionamento é um embargo da minha garganta já faz um bom tempo. Escrevi em forma de desabafo, mas torcendo para que de alguma forma mude o olhar de quem contrata, de quem deve acreditar, de quem precisa auxiliar o profissional do amanhã. Vivo num estado extremamente fechado para a moda e para comunicação. É quase que um clubinho seleto das mesmas pessoas. Sei de exemplos que saíram daqui e conquistaram as principais agências, revistas e marcas do país. Será que é preciso a gente sair de casa, deixar o lugar onde vivemos para sermos do mundo? Talvez esteja chegando o momento de eu me desacomodar e acreditar no universo. Confiar na criação que tive: para o mundo. Talvez.

 O fato é que ter 19 anos parece pouco, mas pouco para aqueles que não querem nada com a vida. Para nós, que já temos 19 anos o caminho é ainda muito maior.

4 Comentários

  1. “Vivo num estado extremamente fechado para a moda e para comunicação. É quase que um clubinho seleto das mesmas pessoas. Sei de exemplos que saíram daqui e conquistaram as principais agências, revistas e marcas do país. Será que é preciso a gente sair de casa, deixar o lugar onde vivemos para sermos do mundo?”
    Sem sombra de duvidas, esse é o trecho que mais me descreve. Trabalho com design na vida offline e não vejo muita valorização da minha profissão no RS, tenho fé de que um dia melhore, mas me pergunto sempre se não seria o caso de “ganhar o mundo” e partir pra um lugar que me propicie melhores oportunidades.
    Na vida online a coisa não é muito melhor. Levei muito tempo pra fazer as pessoas com quem convivo entenderem que o meu blog não é uma brincadeira, ele é parte do que eu sou e do que eu faço. Não é um trabalho com carteira assinada, mas dá tano trabalho quanto.

    Muito bom encontrar alguém que pensa como eu!
    Beijo,
    Vi

    P.S.: Fui eu quem comentei lá no teu vídeo do youtube hahaha

  2. Matheus, lendo o que você escreveu, fiquei com angústia. Não posso dizer que é boa, mas foi uma angústia não negativa, se é que isso faz sentido. Estou angustiada porque sei do que você está falando; está na cara que sim, é um estado sem muitas possibilidades nessa área, uma vez que “se você quer ter reconhecimento precisa ir para SP porque é lá que as coisas andam” e eu queria que fosse diferente. No entanto, não é um conceito do RS e sim do país. Eles não acreditam que “crianças” possam ser dedicadas e merecer o mundo, e acho que o único motivo pelo qual estou escrevendo aqui é para dizer que você, guri, você é dedicado e merece o mundo.
    Fiquei muito impressionada não só com seu estilo, mas com tudo que você já conseguiu.
    Para mim, você tem APENAS dezenove mas JÁ TEM o que muitos passam uma vida sem conseguir.
    Você merece muito mais sucesso, viu? Parabéns, guri.

    Beijos,
    Bi.

    1. Puxa Bianca, muito obrigado pelo teu carinho tão gentil e especial. De coração!
      Fiquei realmente lisonjeado e confiante, são por pessoas como tu que o projeto não desanima e continua firme e forte.

      Obrigado.

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